O Ministério Público chegou à conclusão de que o contrato de concessão do terminal de contentores de Alcântara foi feito à medida dos interesses do grupo Mota-Engil.
Evidentemente que esta evidência não significa que alguém vá preso. Nada disso. Neste caso, o negócio foi feito por anjinhos que não receberam nada em troca e só pensaram, a todo o momento, nos interesses estratégicos do sítio. É natural.
É em nome desses interesses estratégicos que o Estado anda metido em tudo e mais alguma coisa. A esquerda baba-se com os sectores estratégicos e as empresas estratégicas. Pois é. É a face visível de um sistema corrupto, cada vez mais corrupto, em que vale tudo para fazer fortuna e impor aos privados regras sujas de um jogo cada vez mais porco e repelente.
Agora aí está mais uma operação policial que descobriu uma pequena parte da face oculta do sistema. No centro do caso, que está a excitar os indígenas, aparece um sucateiro que criou um grupo empresarial ao fim de muitos anos de trabalho e que terá corrompido uns senhores de colarinho muito branco para fazer negócios com empresas estratégicas do Estado, empregar centenas de trabalhadores e pagar-lhes os salários.
Obviamente que está preso. Os outros, senhores de gravatas caras que circulam nos corredores do poder e das empresas públicas estratégicas há imensos anos, ligados aos partidos do Bloco Central, os patrões do polvo, andam por aí à espera de novas e mandados já com um rol imenso de defensores. É evidente que neste sítio manhoso, cada vez mais manhoso, corrupto, cada vez mais corrupto, pobre, cada vez mais pobre, deprimido, cada vez mais deprimido, cheio de larápios, e que larápios, chicos-espertos, e que chicos, cheio de mentirosos, e que mentirosos, e obviamente cada vez mais mal frequentado, o que não falta é sucateiros que só sobrevivem corrompendo os patrões do sistema.
Claro que não são todos iguais. Há os pequenos, os médios e os tubarões. Desta vez caiu na rede um à medida do sistema que andou por aí a fazer negócios corruptos com várias empresas estratégicas do Estado. Obviamente que está preso. Mas nestas coisas de corrupção é preciso muita calma. Nada de excitações. As campainhas de alarme já começaram a tocar em todos os corredores do poder, e, mais cedo do que tarde, em nome dos altos interesses do Estado, tudo irá voltar à normalidade. A porcaria vai assentar e os corruptos vão continuar a fazer a sua vidinha à sombra desta democracia de muitos maus costumes.
Vítor Santos
De acordo com o relatório da organização internacional dos Repórteres sem Fronteiras, Portugal caiu do 16º para o 30º lugar no ranking da liberdade de imprensa. Dando como assente que em democracia nenhum dos seus valores estruturantes, de que faz parte a liberdade de imprensa, é absoluto, mostra-se evidente que esta queda no ranking é preocupante.
É preciso estar atento porque as novas tendências políticas não gostam de poderes livres e independentes que fiscalizam, que questionam, que querem saber mais, porque a sua missão é a busca da verdade.
A verdade é que não precisávamos deste relatório para sentir no ar este cheiro asfixiante, que se revela de múltiplas maneiras. O cidadão tem de estar com os olhos bem abertos, porque a liberdade de imprensa é um valor que lhe pertence. É em nome dele que ela existe, por isso tem obrigação de a defender. Esperar que seja o poder político, as empresas de comunicação ou os jornalistas a defenderem a liberdade de imprensa é não querer acordar de um sonho.
Não vale a pena recorrer a interpretações enganosas para afirmar que tal acontece porque a forma de comunicar mudou ou porque o jornalismo já não funciona como funcionava. O mal não está na mudança, mas na substância, ou seja, no tipo de jornalista que temos e no jornalismo praticado.
A subserviência, o jornalista de coluna vergada, a ausência de consciência ética da profissão e a não assumpção de uma cultura de responsabilidade estão a matar a liberdade de imprensa. A nova ordem comunicacional, com uma lógica empresarial que alterou os métodos e a forma de conceber e fazer jornalismo, não pode ser a única responsável. Sabemos que temos uma sociedade civil fraca e pouco exigente, mas é importante ter consciência desta realidade.
Como o mundo caminha, os governos vão ter cada vez mais dificuldades em passar as suas mensagens políticas e em fazer uma governação honesta. Estamos a viver o tempo das manigâncias e dos compadrios na arte da governação. A denúncia pública destes comportamentos e a identificação dos seus autores só é possível com uma comunicação social forte e credível.
O que está em jogo, para além da garantia constitucional da liberdade de imprensa, é o direito que a sociedade tem de ser informada. Sem dúvida que a democracia cresce quando os média têm trajectórias claras e transparentes. Por exemplo, o combate à corrupção e à criminalidade económico-financeira só é possível graças à força de uma imprensa livre e de uma opinião pública informada.
Toda a atitude antiética e esquiva não passa de uma canhestra tentativa de acorrentar os princípios universais da liberdade de imprensa.
A imprensa não existe para agradar.O seu compromisso é com a verdade e com os diferentes públicos. Precisamos de estar atentos.
Vítor Santos
O discurso do Presidente da República na posse do XVIII Governo Constitucional marcou toda a cerimónia que decorreu no Palácio da Ajuda. Cavaco Silva fez questão de voltar ao tema das suas difíceis relações com José Sócrates, que aqueceu o Verão político e a própria campanha eleitoral das Legislativas.
De uma forma clara, o Presidente da República disse ao novo primeiro-ministro que "os cargos públicos são efémeros, mas o carácter dos homens é duradouro. Não são os cargos que definem a nossa personalidade, mas aquilo que somos em tudo aquilo que fazemos".
Preto no branco, uma directa ao coração de José Sócrates. E para que os portugueses percebessem bem o que esteve no centro do conflito público e duro entre Belém e S. Bento, Cavaco Silva afirmou: "nunca faltei à palavra dada e aos compromissos que assumi, em público ou privado".
Um discurso forte, sem papas na língua, directo ao homem que estava sentado ao seu lado e a quem tinha dado posse como primeiro-ministro. E se o Presidente da República insiste na cooperação estratégica com o Governo; Sócrates, na resposta, ficou-se pela cooperação institucional.
Uma coisa é certa. Cavaco Silva fez um aviso forte e explícito ao primeiro-ministro: não lhe vai perdoar mais mentiras ou faltas de carácter, públicas ou privadas.
Vítor Santos
Os últimos 7 dias foram uma semana cheia de excitações, de gente excitada e de muita música para ir animando a malta. Um comunista a quem a Câmara de Lisboa pagou uma fita sobre a sua vidinha familiar andou nas bocas do mundo por ter insultado Deus e ter descoberto ao fim de muitos anos que a Bíblia é um manual de maus costumes.
Imagine-se. O homem, comunista de gema que é capaz de apoiar António Costa por causa de uns dinheirinhos públicos, andou todo este tempo a conviver e a apoiar todos os crimes cometidos pelos camaradas e vem agora falar em maus costumes. Mas como o senhor ganhou um Nobel e é muito querido nesta terra de cegos, foi um fartote de programas, debates, opiniões e, obviamente, mais uns livrinhos vendidos à conta da publicidade gratuita. E desta vez não faltou ninguém à chamada.
Politólogos, comentadores, analistas, padres, políticos, teólogos e outra gente fina gastaram imensa saliva com um ignorante manhoso, ávido de dinheiro e cheio de golpes para andar sempre na ribalta.
Mas as excitações não acabaram com esta triste figura. O senhor presidente do Conselho conseguiu ao fim de 25 penosos dias apresentar o seu Governo. Foi uma excitação para os seus fiéis e afins. Então não é que o senhor presidente do Conselho conseguiu arranjar cinco mulheres e dois professores para o seu novo Executivo?
Uma façanha muito elogiada e que hoje teve o seu episódio de consagração com a posse solene dos senhores e senhoras que vão continuar a fingir que governam este sítio manhoso, pobre, cada vez mais pobre, deprimido, cada vez mais deprimido, cheio de larápios (e que larápios), cheio de mentirosos (e que mentirosos), e obviamente cada vez mais mal frequentado.
No meio de tanta excitação, é maçador lembrar aos indígenas alguns factos que andam meio esquecidos ou são rapidamente atirados para o baú das desgraças de que não interessa falar. Uma é o desemprego. No meio de tanta competência e de tanta gente séria e cheia de solenidades, acontece que o sítio já tem mais de 510 mil desempregados, um valor que nunca tinha sido atingido desde o 25 de Abril. Uma façanha que não enche de vergonha nenhum dos senhores e das senhoras que hoje começaram a fingir que vão governar o sítio.
É maçador estragar tanta festa e tanta excitação de tanta gente de bem com tanta desgraça. O que faz falta é mesmo distrair a malta. E para isso tudo serve. Estúpidos, saramagos e outros que tais...
Vítor Santos
Uma sra. Maitê Proença, que segundo li é actriz de telenovelas, gravou um pequeno vídeo sobre Portugal transmitido num programa da TV Globo.
No vídeo, que se pretendia jocoso, a senhora imita o sotaque daqui, mostra uma casa em Sintra com o número da porta invertido; fala de um hotel de cinco estrelas sem técnico de informática; ridiculariza a História de Portugal e revela um nível cultural constrangedor.
A indignação dos portugueses foi unânime (ou quase); não posso ignorar a atitude do meu colega de profissão, Miguel Sousa Tavares que veio a público defender a sua ex-namorada, ainda que, conhecendo o Miguel como eu conheço, sei que este meu amigo faria qualquer coisa para defender os desprotegidos e, sobretudo, uma senhora em período de menopausa.
O único problema da tentativa cómica da sra. Proença é a falta de graça. Seria potencialmente hilariante se tratasse de características reais e realmente ridículas dos portugueses, como o fascínio pela "cultura" de países do Terceiro Mundo, Brasil incluído, que "compensa" o desconhecimento da cultura do Primeiro. Ou a capacidade de dar importância ao que não possui nenhuma.
Se, por exemplo, os franceses respondessem assim às paródias americanas, a Embaixada dos EUA em Paris seria obrigada a criar um departamento exclusivamente dedicado aos protestos. Nunca ouvi falar de protesto nenhum.
Nações a sério concedem a brincadeiras o destaque que as brincadeiras merecem. A ofensa fácil e colectiva exige um caldo notável de presunção, insegurança, boçalidade e atraso de vida. O caso flagrante é o dos povos muçulmanos, que saem à rua em roupa interior sempre que alguém refere Maomé sem a devida vénia. Outro caso, menos flagrante, é curiosamente o brasileiro. Não há muito tempo, um episódio dos Simpsons que retratava o país enquanto um lugar de miséria e insegurança (imagine-se), motivou vasta indignação local, a ponto de altíssimas autoridades ameaçarem processar a produtora Fox.
Em abono do Brasil, lembro que os Simpsons são talvez a série mais influente da história da televisão (e sim, também achincalharam a França). A sra. Proença nem sei quem é. Ou não sabia, até que a absurda polémica em curso a tornou célebre numa terra que reage a galhofas falhadas mediante pretextos para galhofas garantidas. A Maior Tv deu conta da notícia como mostra o vídeo com texto e locução minha; mas, mais não fez do que fazer notícia.
Entretanto, a actriz de telenovelas gravou novo vídeo, este com o reclamado pedido de desculpas e a jura, a título justificativo, de que a senhora até goza o presidente (dela). Ou seja, na escala de respeito da sra. Proença os portugueses situam-se abaixo de Lula. E isso já ofende o meu brio lusitano: não haverá um abaixo-assinado contra o segundo vídeo?
Vítor Santos